terça-feira, 10 de março de 2009

Diário mínimo

16 de Janeiro

Toda a noite, do rumor
sujo que subia da cidade,
esperei algo.

Que o poema se ocultasse
noutro poema?
Que a noite se abrisse à noite
e o poeta ao homem?

Amar isto.

22 de Janeiro

Por vezes, ouço no vento
algo tão frágil, tão infantil,
como a voz de um amigo.

E saio para a rua,
de braços abertos: pronto
a receber no peito
a bala da solidão.

30 de Janeiro

Invadido por um sono branco,
deito-me disposto a lutar.

Alguém me esmagou as asas

E sei que o vou pagar caro.

2 de Fevereiro

Cheio de frio,
invento tudo.

Amor como pão
para a boca.

E uma amiga,
quando necessário.

8 de Fevereiro

Da primitiva vontade
sobrou apenas

esta teimosia em redimir
o cansaço

numa transparência tão perfeita
que me cega.

15 de Fevereiro

São quase sete horas.
Ao longe, uma mancha de sangue
anuncia a noite.

Enquanto um homem
permite que a memória o atravesse
como um veneno letal,

alguns pássaros,
lá longe,
levam para longe o céu.

22 de Fevereiro

O céu parece irremediavelmente
Separado do poema.

Tentado a morrer,
um homem escreve:

«Leitor,

se inventares janelas
para esta parede branca,

encontrarás do outro lado
o amor.»

1 de Março

Tanto silêncio

pode querer dizer uma coisa.

Não a digas.

Mas não te cales.

Se a tua culpa é infinita,
a dos outros também.


3 de Março

Quase um poema.
Quase sem palavras.

7 de Março

O obsceno pássaro da noite
não é uma imagem vã.

E o silêncio,
no fundo,
é a pele
de todos os poemas.

9 de Março

Casa de ser,
mas não de estar,
um poema é sempre
do sexo oposto

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