16 de Janeiro
Toda a noite, do rumor
sujo que subia da cidade,
esperei algo.
Que o poema se ocultasse
noutro poema?
Que a noite se abrisse à noite
e o poeta ao homem?
Amar isto.
22 de Janeiro
Por vezes, ouço no vento
algo tão frágil, tão infantil,
como a voz de um amigo.
E saio para a rua,
de braços abertos: pronto
a receber no peito
a bala da solidão.
30 de Janeiro
Invadido por um sono branco,
deito-me disposto a lutar.
Alguém me esmagou as asas
E sei que o vou pagar caro.
2 de Fevereiro
Cheio de frio,
invento tudo.
Amor como pão
para a boca.
E uma amiga,
quando necessário.
8 de Fevereiro
Da primitiva vontade
sobrou apenas
esta teimosia em redimir
o cansaço
numa transparência tão perfeita
que me cega.
15 de Fevereiro
São quase sete horas.
Ao longe, uma mancha de sangue
anuncia a noite.
Enquanto um homem
permite que a memória o atravesse
como um veneno letal,
alguns pássaros,
lá longe,
levam para longe o céu.
22 de Fevereiro
O céu parece irremediavelmente
Separado do poema.
Tentado a morrer,
um homem escreve:
«Leitor,
se inventares janelas
para esta parede branca,
encontrarás do outro lado
o amor.»
1 de Março
Tanto silêncio
só
pode querer dizer uma coisa.
Não a digas.
Mas não te cales.
Se a tua culpa é infinita,
a dos outros também.
3 de Março
Quase um poema.
Quase sem palavras.
7 de Março
O obsceno pássaro da noite
não é uma imagem vã.
E o silêncio,
no fundo,
é a pele
de todos os poemas.
9 de Março
Casa de ser,
mas não de estar,
um poema é sempre
do sexo oposto
Em homenagem ao Ramiro
Há 10 meses
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